Crônicas

A palavra medo

Cena de guerra e fuzil e sangue…

Onde estão os afagos e os beijos e o abraço?

Cena de guerra e mãos para cima e mãos algemadas e confusão. Uma crônica áspera e truncada e difícil, um senão.

Os beijos e os afagos e o abraço onde estão?

É só poeira e tristeza e desilusão.

Estarão juntos o beijo e o tiro, o abraço e o fuzil, os afagos e a agressão?

Cena de guerra, uma página na história, botas, farda, faca entre os dentes, caveirão. A violência constante do Rio e do Brasil! A perda das infâncias. A perda da juventude!

Escrevamos um parágrafo ao beijo e ao queijo e ao pão. Beijo esperado.

Queijo partido. Pão alcançado. Suor e lágrimas. Mistura. Massa diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não percebe a força do cotidiano, entretanto, vê tudo o que se passa. E tudo é forte e fala até quando cala.

Mas a violência e o calor não esperam! Chegam e arrastam! Os tiros e os rostos intranquilos e os dias e as fugas e as cidades próximas e o cheiro de álcool e pneus velhos queimados e as imagens da selvageria, helicóptero no ar… Há muitos covardes. Pseudo-homens que levantam fuzis e gritam e matam e morrem. Morrem cedo. Morrem tarde. Morrem e matam.

Voltemos ao abraço e ao corpo e ao chão. Abraço desejado. Corpo moído, trêmulo. Chão e descanso, sono. Suor e lágrimas.

Heterogeneidade. Idade e insanidade. Pasta diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não entende o poder do cotidiano, contudo, vive e vê tudo o que passa. E tudo é muito e grita até quando cala.

Mas a água escura do esgoto leva detritos humanos. As águas fétidas e viscosas levam coisas e seres. E fogem muitos. E fogem eles, os pseudo-homens. E são baratas e aranhas e ratos. E têm muitas mãos e pés e dedos com que avançam e empurram o que está pela frente. Anseiam chegar em vielas novas.

E há o silêncio. Um silêncio perplexo dos espectadores da cidade da guerra.

Alguns fugiram. Muitos fugiram? Alguns… Alguém… Voltemos ao silêncio estarrecedor. A palavra MEDO corta o horizonte como bala. A palavra MEDO parece estar ali, imóvel e imponente. A palavra MEDO ri dos homens e dos bichos. A palavra MEDO ainda existe. E ainda existe o medo da palavra MEDO.

É o medo da normalização da barbárie!

É o medo dos políticos e da política que mata!

É o medo da perda de direitos e de humanidade!

É o medo ouvindo os temores e tremores no Congresso Internacional do Medo.

É um medo que paralisa e que compromete o futuro.

O medo está ali. Ninguém fala porque a palavra MEDO apavora até quando se cala.

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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